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Quando uma linda mulher, cabelos longos, pretos, escorridos até o ombro, olhos verdes suntuosos, boca macia, cintura fina e pele delicadamente desenhada, aparece em meio ao deserto sul-africano com sua expressão jovial de descendência ítalo-portuguesa e pede com o charme de sua vuvuzela prometida “por favor pare de falar mal do Dunga”, então, de cara, você logo percebe: trata-se de uma miragem, a sombra devastadora da Copa do Mundo. Uma tentação da cobiça do jejum. A falta de gols e o pecado da abstinência da criatividade. O estado febril. O centroavante adormecido. O volante marcador e o meio de campo que só destrói. 

Indiscutivelmente, a metáfora se encaixa de forma poética com a Copa do Mundo de 2010. Foi, sem dúvida nenhuma, o mundial da bola quadrada. E olha que nem entramos no mérito da questão da Jabulani. Isso a gente deixa para quem entende da coisa. Ou seria para quem não entende? Mas, para quem já viu ou acompanhou ao longo da história o brilho sedutor de Garricha das Pernas Tortas, Pelé dos 1000 gols, Romário do Time nas Costas, Zico do Pênalti Perdido, Sócrates da Ordem e Progresso, Tostão da Autêntica 9, Ronaldo da Fé e Superação, Didi da Folha Seca e Dunga da Única Taça que foi parar onde não devia, o mundial da África do Sul deixou a desejar.

Tecnicamente, foi ruim. Péssimo. Emotivamente, fantástico. Mas uma coisa é preciso dizer. O Dunga fez escola. Mais que isso. Fez universidade e especialização. Construiu um MBA em “Gestão da Falta de Qualidade”. Certamente a sua empresa vai mandar o seu funcionário demitido para lá. Mas ele ultrapassou barreiras e deveria ganhar um cargo de confiança no Ministério dos Esportes em Brasília. Ou virar atendente do Serviço de Atendimento ao Cliente da CBF pra ver como é bom mexer com o “olho” de quem está quieto. Seja como for, ele ensinou ao mundo a arte da guerra. E o mundo aprendeu. Aprendeu que no futebol o que menos importa é marcar gols. Primeiro destruir, depois defender. Se sobrar tempo, nos descontos, bico para onde estiver virado. Por fim, todo mundo para aquele lugar.

O método deu tão certo que ele conseguiu fazer com que o Luis Fabiano, um baita artilheiro, ficasse escondido. E quando o Luis Fabiano fez aquele golaço que parecia que daria uma de Romário em 94, o professor egocêntrico logo cortou. ”De novo não”, deve ter pensado. “Vai ofuscar o brilho dos meus sapatos. Já chega o Romário 16 anos antes”. Como se ele fosse o astro. Como se só ele tivesse espaço. Ele e seus convidados. Convidados, nem sempre, bem-vindos. Educadamente – cavalheiro como é -, quase um lorde britânico, ofereceu uma dose qualquer de alguma bebida sul-africana servida tradicionalmente no esfíncter, ao Alex Escobar. E tradição é tradição. Tem que ser respeitada. Ou toma direito ou não toma. Pobre moço de paladar fino. Parece que o competente comentarista da TV Globo não gostou muito. Como não deve ter gostado o Luis Fabiano que com certeza teve o momento mais importante da sua carreira apagado pelo destruidor de jogadas bonitas.    

Uma pena, mas 2010 não foi o ano dos atacantes. Basta dizer que o primeiro gol da Seleção Brasileira na Copa foi marcado por um lateral. Você já pensou uma coisa dessa? A desculpa dada era que a Coréia do Norte estava jogando toda fechada. E tem gente que ainda acredita nisso. Quer dizer que se a Venezuela estiver toda atrás, a Seleção Brasileira não tem que golear? E a pergunta que fica é aonde estava o Luis Fabiano quando o Maicon fez o gol? Acredito que deveria estar no meio-de-campo ajudando na marcação. Já pensou se dá um contra-ataque? O Dunga poderia sacá-lo do time pela falta de coletividade... Viriam até as entrevistas obrigatórias: “o futebol mudou, atacante, hoje, tem que ajudar na marcação”. Não é isso que dizem? Para mim, atacante tem é que marcar gols. E destruidor de jogadas bonitas, apenas, impedir a criatividade, mas dos adversarios. Como dois e dois são quatro.   

Mas, para a alegria brasileira ou infelicidade de todo o planeta, esse não foi um problema enfrentado somente pelo Brasil. Diz o ditado que uma laranja podre estraga as demais. Ainda mais se a laranja não for mecânica e não tiver a genialidade de Cruyff. Entretanto, se a regra vale para o futebol, então, espero que alguém tenha o bom senso de separar o Forlán do resto do mundo. Por favor, salvem o melhor da Copa. Um autêntico camisa 10. O único a honrar o talento que Deus lhe deu. E como joga bonito esse Forlán. Um título que soa com a melodia do amor. “Aquele que tratou a bola com o brilho do olhar de uma princesa valentiana”. E se o coração de um guerreiro pudesse falar...

Forlán, na realidade, fez muito mais do que os brasileiros esperavam de Kaká e os argentinos - sempre confiantes - diziam de Messi. Cada vez que pegou a bola para cobrar uma falta, levantou o estádio. Foi leal o tempo todo. Em nenhum momento chutou de lado. Não fez cara de Rambo. Não usou nenhuma metralhadora para disparar suas frustrações em quem nada tinha a ver com a história. Comportou-se com elegância. Foi calçado, derrubado e aplaudido. Fez da letra a conquista do respeito. Deu ao jogo limpo a democracia da imposição. Mostrou ao vilão como se vence. Ainda que a vitória seja apenas para dizer “eu fiz o meu melhor”.  

E no final das contas, se o que vale é o título, na filosofia do futebol mal jogado do estilo Dunga de ser, o que é menos vergonhoso? Perder de cabeça erguida, com um chute caprichosamente colocado na trave no último minuto de jogo, em uma epopéia da arte, como o Uruguai, ou sair derrotado e aniquilado pela própria arrogância como fizeram as Seleções Nacionais de Brasil e Argentina? Acredite, aposto que os uruguaios estão felizes com o futebol apresentado pela equipe Azul Celeste e que em Montevidéu ninguém precisou desembarcar pela porta dos fundos do aeroporto. Nem mesmo o Diego Lugano! Esse um craque em destruir jogadas.

Mas o futebol, por si, chama a atenção. Igual a mulher bonita quando sai para passear. Pode ser aquele zero a zero mais fajuta que, mesmo assim, vira destaque mundial. Até pênalti perdido é comemorado. Aliás neste ano, bola e gol não se entenderam. Foi divórcio na certa. Cada um para o seu lado. E nenhum outro jogo traduz melhor a realidade do que o clássico dos horrores entre Espanha e Paraguai. Uma partida que, se não fosse o melhor exemplo para descrever a Copa do Mundo de 2010, deveria ser engolida pela história. Como o velho e bom educado Mário Jorge Lobo Zagallo um dia sugeriu. E que saudade do homem que deu ao Brasil quatro títulos mundiais e que com uma equipe ofensiva esteve perto da conquista na França. E volto a perguntar. Já que a vitória não veio e, sabendo que o gosto da derrota tem o mesmo paladar do lócus gênico onde o Dunga outrora enviou a taça, o que é melhor, sair de cabeça erguida com um time competente como em 1998 ou perder para a ridícula Holanda de 2010?

Eu prefiro dizer: “Bateu na trave em 1998”. Como bateu na trave a bola do Forlan contra a Alemanha. Mas, talvez, se a convulsão tivesse acontecido em outro cara..., mas logo no Ronaldo! Aí é brincadeira. Nem com uma colonoscopia o Brasil pegava aquela taça. Um desarranjo sem graça a ser esquecido. Como foi o jogo entre Espanha e Paraguai. Dois pênaltis perdidos no tempo normal. Um na sequencia do outro. Um para cada time. Quanta incompetência dos atacantes neste ano.

A Copa do Mundo de 2010 foi decidida em um chute de Iniesta, quase nos pênaltis. A bola foi maltratada. A princesa jogou a toalha. Desistiu. Disse “não” aos pretendentes. Trocou o trono pela Rua da Lanterna Vermelha de Amsterdã. Foi ganhar a vida fazendo algo mais prazeroso. Perdeu a esperança de ser amada pelo futebol. O príncipe, por sua vez, virou um sapo. Como da foto ao lado. Um sapo enorme e do tamanho que o mundo inteiro teve que engolir diante da falta de criatividade de seus jogadores. Um sapo sorridente, é verdade. Com cara de assustado. Mas não deixa de ser um sapo. Sapo é sempre Sapo. Um sapo, destes, que faz a gente torcer para que no Brasil, em 2014, os vales sejam de vares diferentes e que o verdadeiro amor volte a bater no peito dos torcedores mais vislumbrantes. E, claro, que a princesa não acabe engolida pela cartilha do professor Dunga.  E como diria Romário: “que o peixe não morra pela boca”.


Antes da Copa, uma música tocava alto, era mais ou menos assim: "Ei Dunga, meu irmão, me diz como é que é, tu não levas o Ronaldinho, mas vai levar o Josué?" Se você quiser ouvi-la, fique à vontade: http://www.midiagols.com.br/videos.html?task=videodirectlink&id=52

Isso não foi uma profecia... Mas sim uma constatação. Brasil sem criatividade, o primeiro pecado! Sem poder de reação, o segundo! Sem controle emocional, o terceiro! Nem o tal comprometimento foi capaz de perdoar estes pecados...

Não teve graça de ver a seleção brasileira, nem contra a Costa do Marfim, nem contra o Chile, nem o primeiro tempo diante da Holanda. Não me enganei nenhum minuto com esse time que, nestes momentos que eu citei, mais aproveitou a falha dos rivais do que criou chances... Claro, não torci contra também. O fato é que eu não me empolguei... Por quê?

Porque não houve graça, não houve criatividade, não houve talento, só por isso... E por isso, o Brasil foi eliminado!!!


Hoje não teve jogo na Copa do Mundo, que alívio e que saudade! Não é que as partidas fizeram falta? Mesmo que algumas delas nos deixem com sono, Copa é Copa, e é por isso que estamos aqui!

Pois é! Então vamos comentar algumas cenas do Mundial! Por exemplo, Itália e França, decepções esperadas. Mas a Inglaterra pisou na bola mesmo. Poderia ter ido mais longe, mas pegou a Alemanha pela frente. Mesmo assim, antes disso, o English Team apresentou uma capacidade pífia de jogar futebol.

Gostei de ver: Alemanha, Holanda, um jogo do Japão e todos os sul-americanos, que estão de parabéns!!! Aposto em pelo menos um na final. Quem sabe o Brasil?!

Jà a Espanha está aí. A derrota na estreia para a Suíça serviu para baixar o fogo. O time entrou no eixo. Não fez ainda aquela apresentação de gala, talvez esteja guardando para um momento apropriado. Resta ver para crer!

E você aposta em quem???

Veja os nossos vídeos direto da África do Sul, sempre de uma forma diferente e irreverente, com Chico de Assis - CLIQUE AQUI


A Seleção Brasileira apanhou. Saiu de campo machucada. Levou pontapés de todos os lados. Inclusive da arbitragem. Stephane Lannov foi amigo da onça. Deu uma mãozinha para Luis Fabiano e depois uma mãozona para o Kaká. Aliás, de francês, em Copa do Mundo, não dá para esperar outra coisa. Você se lembra do beijo do Zidane na careca do Roberto Carlos? Depois deu no que deu. Até chapéu em Ronaldo o carrasco brasileiro meteu. Foi uma das mais exuberantes atuações de um jogador em todos os tempos. E todo mundo aplaudiu. Até o Dunga que já estava de olho na cabeça do Carlos Alberto Parreira.

Mas a realidade é que Stephane Lannov deixou o jogo correr e assistiu uma outra partida. Nem mesmo a charmosa Demi Moore, famosa por seu quadril um pouco mais voluptuoso, digamos, assim, engoliu a expulsão do Kaká. Saiu em defesa do meia brasileiro que ao deixar o gramado desabafou: "as imagens vão falar por mim".

O ex-são paulino não consegue bater nem em barata. É verdade que o nosso camisa 10 baleado deu um chega pra lá no lance do primeiro cartão. Mas quem expulsa Kaká merece um troféu. Em Copa do Mundo, então, nem se fala. Nem mesmo o Dunga, que tem cara de mal e coração de leão, colocou o Kaká para fora. E olha que o craque brasileiro merece o banco faz tempo. E o Dunga, por sua vez, é o Dunga.

Mas, pensando bem, até que a expulsão que o tal do Lannov arrumou foi bom pra todo mundo. Só não foi para o Kaká, que não precisa provar nada para ninguém. Mas que o Dunga deve estar comemorando... Imagine a alegria do treinador em saber que vai poder testar o seu reserva de luxo em paz. Ninguém vai poder falar nada. E será que vem o Julio Baptista?

Mas e o Elano? Também saiu machucado. Os elefantes surpreenderam com suas pisadas. A Costa do Marfim foi mais perigosa que a temida Coréia do Norte. E olha que quando se fala em ataque norte-coreano, de cara, se pensa em armamento pesado. Faltou pouco para o Elano voltar para casa e assistir o restante da Copa ao lado do Emerson. Aliás, o Emerson poderia ter deixado para brincar depois da Copa.

Agora, se alguém duvidava do amadurecimento do Luis Fabiano, o mais batedor de todos, ficou provado que os tempos mudaram. Que ele sabia fazer gol, era inquestionável. Os números falam por si. Ficou um tempo sem balançar as redes com a Seleção, mas ele é o Luis Fabiano. Como dizem os bons comentaristas, falar mal de camisa 9 é querer dar um tiro no pé.

Ainda mais se for Luis Fabiano. Os dois gols contra os africanos não foram motivos de surpresa. A novidade é o ex-são paulino apanhar e não revidar. Em outros tempos ele teria quebrado a perna de uns quatro. Claro, neste caso, seria em legítima defesa, afinal de contas, não dá para apanhar toda hora.

E o recado vale pro Dunga. O treinador continua entrando com as duas solas pra cima da imprensa. A última foi falar que os jornalistas não queriam Luis Fabiano com a 9. Isso não dá para engolir. Nem mesmo o Zagallo ficaria calado. Diz o mestre que "a vitória costuma apagar os erros". Tudo bem. Mas a história não pode esconder as verdades. Faz tempo que o Dunga vem com o papo que a derrota de 2006 foi culpa da imprensa. OK. É preciso esclarecer alguns pontos.

Quem batizou de "Oba-oba" a concentração em Weggis não foi o atual treinador e ex-capitão de 94. O Dunga até que parece querer esse título, mas foi a imprensa que mostrou "pessoal, tem alguma coisa errada. O trabalho virou bagunça". É bom que o torcedor saiba que quem vendeu os treinos para o mundo inteiro, incluindo televisões de guerra, com a Al Jazira, foi a CBF e que nenhum jornalista ganhou luvas por isso. Quem dançou com o Ronaldinho Gaúcho no gramado não foi nenhum repórter. Também não foi nenhum comunicador que jogou o Robinho na lata de lixo. Será que o Dunga se lembra disso?

Mas, vale dizer, que foram os fotógrafos - e lamentavelmente, esse título não pertence ao Brasil - que flagraram meio time da Seleção Brasileira em uma balada em plena Copa do Mundo. Kaká e Cafu não estavam entre os baladeiros.

Como diria Daniel Giffoni e Rafinha Bastos, do inigualável CQC, na obra de arte "Judas não era um traidor, era só um cara com problema de memória", brincadeirinha sem graça... (http://www.youtube.com/watch?v=ZilAPLiNQxI)

Agora, que o Dunga tem que parar de entrar com as travas da chuteira, isso é uma coisa óbvia. Não cola a tese de que a imprensa joga contra. Todos querem a vitória do Brasil. De preferência com show. Mas se vier aquele jogo sem graça que dá resultado com pênalti do adversário batido pra fora, tudo bem. Melhor do que nada. Mas que fique clara a frase que me foi dita pelo técnico Vanderlei Luxemburgo, hoje com a perna quebrada, em 2002 durante a minha primeira Copa do Mundo. "Quando o Brasil vence é bom para todo mundo. É bom para o jogador que fica mais valorizado. É bom para o treinador que abre portas na Europa. É bom para o torcedor que comemora o título. E é bom para você que está começando a sua carreira e que vai ter muitas outras oportunidades".

Então, Dunga, imprensa que joga contra a seleção só lá no Afeganistão. Por lá os jornalistas devem estar cansados de coberturas de guerra. Não que na África do Sul, no Hadpark Golf, em Joanesburgo, a coisa seja diferente. Mas Dunga, menos. Ou a gente vai ter que chamar o Ronaldo para relembrar os rolinhos que fizeram do Fenômeno o maior artilheiro da história das Copas.  Só faltava você ter batido nele também.


Foram vinte e sete horas./ Apenas, tudo isso./ Parece pouco e suportável, quando se está com um bilhete de primeira classe./ Mas acreditem, é tempo que não acaba mais./ Vinte e sete horas são vinte e sete horas./ Isso é ponto./ Tudo bem que eu sou um apaixonado por trens, mas é preciso muita disposição para embarcar em uma aventura como essa./ Se você é o tipo de pessoa que não tem paciência, então, desista./ Vai perder uma boa oportunidade de curtir uma das melhores experiências da vida./ Agora, se você não dispensa um pouco do romantismo dos trilhos, então, se prepara para degustar um pouco da sensação de que o tempo parou e você continua vivo em um caminho sem volta./ É, simplesmente, incrível./

Faz-me lembrar, mais uma vez, uma canção do Guns n' Roses./ Essa, chama-se Nightrain e conta em sua letra uma história muito parecida com a minha./ Trata-se de um cara que vive em um caminho sem volta, um cara que bebe gasolina e só tem mais uma entre sete vidas de gato./ Um cara que pede para uma garota ligar o seu motor e diz para essa mulher: "acorde tarde, vista suas roupas, pegue o seu cartão de crédito e vá para a loja de bebidas./ Desta vez, será uma para você e duas para mim". Nightrain, na tradução do velho rock n' roll, significa "Trem da Noite", mas foi criada em tempos em que a grana andava apertada, em um contexto bem diferente do que se pode entender./ Devo explicar./

O famoso Rainbow, outrora reduto de encontro dos Beatles, é considerado um dos bares mais caros e atraentes do mundo./ Nele, foram gravados, entre outros clips, partes dos vídeos de Don't Cry, Estranged e November Rain./ Por volta dos anos 80, havia lá uma bebida forte e ‘barata' que se chamava "Nightrain"./ Em outras palavras, um vinho meia boca tipo sangue de boa que custa pouco e sobe rápido./ Mais ou menos como o velho Natal que eu tomava durante a adolescência antes de ser apresentado ao Bolla Italiano./ Nightrain era a única bebida que os integrantes do Guns n' Roses tinham dinheiro para comprar na época./ Daí surgiu a música em que Axl Rose canta "I'm on the Nightrain, never to return"./

Gosto desta música porque me identifico com ela./ Sou um cara solitário na estrada, chutado como um mendigo pelas ruas, tomando Nightrain  pelo caminho e seguindo em um caminho sem volta./ Acho que a vida é isso./ Você entra na estrada e quando vê a estrada já te consumiu./ Você passa a fazer parte da estrada e ela passa a te querer cada vez mais./ E você, algumas vezes, até tenta ficar de fora, mas quando vê está dentro de um trem noturno, bebendo gasolina, vivendo sua última das sete vidas de gato./ E acreditem, eu já gastei todas as minhas outras seis./

Dito isso posso contar os detalhes da viagem de 27 horas./ Não foi a primeira vez que embarquei em um trem sozinho pela África do Sul./ No ano passado, após a Copa das Confederações, segui para o norte do país para entrar no maior safári do mundo, chamado de Kruger National Park./ Se não me falha a memória o Rogério Assis estava por lá.../ Confesso, não me recordo./

Aquela viagem de trem foi complicada porque só havia classe econômica dentro do expresso./ Então, embarquei junto com os bêbados no vagão./ O detalhe é que o consumo de bebida alcoólica é permitida dentro do trem./ Lembro de um cara mala que toda hora ficava falando "Never n' ever"./ Pela janela, ao amanhecer, dava para ver elefantes e outros tipos de animais em seu habitat natural./ Maravilhoso./ Eu poderia escrever um livro./ Aliás, vivem me pedindo isso./

Desta vez, embarquei na Cidade do Cabo pontualmente às 12 horas./ O trem partiu às 12h29, com um minuto de antecedência em relação ao horário marcado./ A estação ferroviária de Cape Town estava um bagaço./ Só para você ter ideia, havia até carro estacionado na plataforma!/ Nunca vi isso em lugar nenhum do mundo./

Paguei pouco mais de 400 rands pelo bilhete de primeira classe./ Mas primeira classe na África do Sul não significa muita coisa./ Porém, que seja dita a verdade: foi bem divertido./ Foi a primeira vez que viajei de primeira classe dentro de um trem e que tive que tive que dividir o meu compartimento com outro passageiro./ Era um negão de 30 metros de altura que mal cabia sozinho no quarto.../ Mas o cara era engraçado./ Ele tomava brand com coca-cola para esquentar./ Evidentemente, tomei um trago para brindar a vida./ Adoro uísque./ E tomar uísque no trem é bem legal./ O curioso é que o gerente de operação do trem, quando veio conferir a passagem, fechou a porta e ficou tomando uísque com a gente./ Eu não acreditei./ Aí quando liguei a câmera perguntei se ele estava tomando um "café".../ Foi bem engraçado./

Em 27 horas, você tem tempo, também, para ir ao vagão restaurante./ Afinal de contas, são 27 horas./ A comida é barata./ Aliás, na África do Sul, em si, as refeições não são caras./ O vagão restaurante, no entanto, deixa a desejar./ É melhor que o Argentino./ Fiz uma viagem uma vez de Buenos Aires a Cordoba de trem, e apesar de gostoso, o expresso era bem decadente./ Mas aconselho quem quiser fazer./ Vale à pena porque as coisas na Argentina são bem em conta e o lugar também é bacana./ Aliás já que estamos falando de trem... aconselho também o Trem da Morte que sai de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, e vai até a fronteira com Corumbá, no Brasil./

O Trem da Morte é um capítulo especial./ É sem dúvida nenhuma o pior trem que já viajei./ Foram cerca de 24 horas em um assento de madeira não reclinável e duro./ Talvez você não acredite... mas vou explicar porque se chama Trem da Morte./ Durante a viagem, além de presenciar uma criança sendo atropelada pelo meio do caminho, ainda sofri um descarrilamento durante a madrugada./ Mas foi algo pequeno./ Não foi como nos filmes em que os vagões voam e as pessoas morrem./ O trem descarrilou dentro da estação ferroviária de uma das cidadezinhas que passa./ Não tenho a mínima idéia do nome./ Tirei fotos./ Foi um susto grande, para mim, mas eles já estão acostumados com isso... e colocam o vagão nos trilhos rapidamente./ Dizem, também, que se chama Trem da Morte porque transportava pacientes com tuberculose em carros especiais.../ Muito provavelmente, os passageiros já chegam mortos ao término da viagem./

De qualquer forma, o Trem da Morte é uma experiência fenomenal./ Você viaja com porcos, galinha e tudo o que imaginar./ Assim que voltar ao Brasil vou enviar o vídeo que editei para o Vagner Lima colocar no ar./  Vale à pena assistir./

Outra viagem de trem que fiz foi para Machupicchu./ Esse, um trem careiro, cheio de turistas./ Diferente do Trem da Morte, corta um dos cenários mais exuberantes que já vi./ Aliás, no quesito paisagem, nenhuma outra viagem que fiz, mesmo pela Europa, foi tão espetacular quanto os trilhos de Machupicchu./ E olha que conheço bem a Europa./ No Velho Continente fiz várias viagens de Trem./ Duas em especial./ Uma pelo famoso Orient Express, o trem mais antigo do mundo que liga a Turquia a Londres, cortando toda a Europa./ É uma viagem incrível./ A outra foi de primeira classe no TGV de Roma a Milão./ Sem comentários./ Somente fazendo para saber./

Então, quando eu falo de Trem, um pouco de gabarito eu tenho./ E o Trem da África do Sul que parte da Cidade do Cabo a Johannesburgo é interessante, sim./ Há um túnel de 13 km por baixo da savana./ Também cortamos a região das vinícolas sul-africanas./ E, enfim, chegamos a região metropolitana de Johannesburgo, que lembra muito o trem de subúrbio de São Paulo, com aquelas paisagens devastadoras./ Nesse momento, o melhor a fazer é fechar a janela e dormir./ Mesmo porque o vagão restaurante passa a maior parte do tempo fechado.../

Faz-me lembrar o vagão restaurante do TGV italiano... parece uma boate./ E eu ia me esquecendo, também fiz uma viagem de Trem da República Tcheca a Alemanha./ Aquela foi interessante porque, na classe econômica, dividi o compartimento com uma francesa e um casal de finlandeses./ Antes que a minha mulher fique com ciúmes já vou logo avisando que a francesa tinha cabelo no braço./ Mais que eu!/ Devia ser daquelas que colocam a baquete debaixo do braço e saem caminhando por París ao fim do dia./ O povo brasileiro tem uma mania de exaltar o exterior... mas deveriam dar mais valor ao que é nosso./ Quando chegar ao Brasil vou direto ao Rio de Janeiro fazer um passeio naquele trem que a gente paga R$ 2,00 na Central do Brasil e que quando acaba a luz é preciso sair pela janela antes de desembarcar no Maracanã para ver o Mengão do meu querido amigo da TV Record Tony Assis.../ E sai aquele montão de torcedor abraçado gritando "Mengão ê ô"./ Para tristeza dos corintianos.../

De Pretoria,

Chico de Assis.


A frase acima pertence ao guitarrista Slash. Faz parte de sua biografia e conta um universo absolutamente apetitoso do ponto de vista vitorioso./ Bem, aqui na África do Sul, agora na Cidade do Cabo, eu não poderia começar esse texto com outra expressão. Se o leitor se recorda, em nosso último post relembrei a história de quando, sem lugar para dormir, fui convidado por um bêbado a  passar a noite com um amigo em sua casa ao lado de sua esposa e filho./ Evidentemente, aceitei./

Portanto, neste post, que mais parece uma continuação, vale a expressão: "Parece exagero, mas isso não significa que não aconteceu". Exagero seria se não tivesse ocorrido. Mas, acredite, voltei a ser convidado por um sul-africano a matar a noite em sua casa. Desta vez, ao sul de Bloenfomtein, na cidade de Durban, onde Brasil e Portugal vão se encontrar pela terceira rodada da Copa do Mundo de 2010.

Bem, eu estava em um restaurante, a poucos metros do estádio local./ Meu ônibus só sairia no dia seguinte e a única opção disponível para hospedagem, a mais em conta, superava a casa dos 200 dolares./ Estou falando de um hotel Cassino./ Uma fortuna para passar uma única noite./ Evidentemente, optei pelo plano B: "passar a madrugada no bar matando a noite com meu computador ligado".

Teria acontecido isso, se os sul-africanos não me identificassem como brasileiro./ Olha, no Brasil, diante de tanta sacanagem, da vergonha, às vezes, de ser brasileiro./ Agora, quem está acostumado a viajar pelo mundo sabe que não tem nada melhor do que ser brasileiro!/ Ser brasileiro abre portas./ Essa é a verdade./ No meio de tanta festa, eis que um garçom me pergunta onde ficaria hospedado.../

Diz a biblia: "O orgulhoso acaba confundido"./ Falei a verdade: "Na rua, está tudo muito caro aqui!" Dai surgiu o convite para que dormisse em sua casa./ Disse-me Ilze Scamparine, uma vez, na Itália: "você é corajoso!" De fato, essa é uma das minhas características./ Não tenho medo de nada./ Nem da cara feia do mala do coordenador de jornalismo da faculdade que estudei durante os anos de gradução./ Alias, que mala! Um mala total! Mais mala que ele, só o seu clone porque além de mala não é original./

Mas o fato é que aceitei o convite e me meti em uma experiência de vida maravilhosa. O vídeo dessa aventura ainda vai ser editado pelo amigo Vagner Lima./ A verdade é que o garçom morava na periferia de Durban./ Ou seja, ao término do serviço, depois das 22 horas, saímos pelas ruas da África do Sul dentro de uma lotação./ O carro tinha capacidade para umas 10 pessoas./ Mas deveriam haver pelo menos 15.../ Durante o percurso, encontrei um cidadão de Moçambique./ O único a falar português no veículo./ A conversa se resume aqui:

"Meu amigo, esse carro esta cheio de ladrões. Você sabe o significado da palavra malandro? Fique tranquilo porque você não esta sozinho./ Mas jamais entre em uma lotacao sozinho!" Era tudo o que eu não queria ouvir naquele momento./ Entretanto, nada me aconteceu./ Uma hora depois estavamos na casa do garçom./ Um local com paredes barro, tijolos mal acabados e apenas uma cama e um sofá./ Evidentemente dormi no sofá, antes que algum engraçaadinho façaa a pergunta.../

O detalhe, no entanto, fica por conta do banheiro./ Simplesmente, não tinha!/ Na manhã seguinte, tomei banho com água esquentada no fogão, na casa da mãe do garçom./ Lá, havia banheiro./ Não havia pia.../ Foi uma experiência fantástica porque estive envolvido diretamente com a realidade da África do Sul./ O lado que não vai ser mostrado em essência durante a Copa do Mundo de 2010./

Portanto, você aí no Brasil, que acompanha com a gente os bastidores dessa Copa do Mundo, por favor, pense duas vezes antes de reclamar da vida e dizer que passa por alguma situação difícil./ Eu, que já cobri três terremotos, muitas tragédias e estive duas vezes na África do Sul, posso garantir: Tem coisa muito pior nessa vida que você nem imagina o que é./

Da Cidade do Cabo,
Francisco de Assis.//


Imagine que você está em uma cidade pequena e repleta de ladrões./ Transporte sua mente para Bloemfontein, uma das sedes da Copa do Mundo, e coloque-se na posição de um repórter e um torcedor que não encontraram nenhum hotel para passar a noite de inverno longe dos bandidos./ Feito isso, responda a si mesmo: o que fazer quando isso acontece?/
 
Junho de 2009, Copa das Confederações./ A Seleção Brasileira se preparava para fazer a sua estreia no torneio que seria tido como o último grande teste de Dunga./ Em um local com pouca estrutura hoteleira e muitos dólares nas carteiras, era de se esperar que todo o povoado estivesse de certa forma aguçado./ E estava./ Então você se vê em uma floresta onde você pode ser a refeição./ Acredite, isso não parece nada legal./
 
A ideia para sobreviver naquela noite era ficar acordado./ E ficar de olhos abertos dentro de algum lugar em que os bandidos não poderiam atacar./ O único local de toda a cidade era um posto de gasolina 24 horas./ A questão, agora, era encontrar uma forma de fazer com que os funcionários da loja de conveniência não lhe atribuíssem o título de inconveniente./
 
Pense: não é sempre que um cliente entra para comprar algo para matar a fome e passa a noite inteira andando de um lado para o outro como se estivesse matando o tempo./ Nessas horas você tem que se colocar na cabeca de quem está do outro lado./ O que estavam pensando os funcionários da loja?/ Ou que eramos ladrões ou vagabundos, afinal de contas, Teresa de Calcuta ou São Francisco de Assis, como dizem por ai, nao andariam de madrugada como se fossem zumbis./
 
Mas o que importa é que a estratégia foi bolada./ Pedi uma garrafa de dois litros de Coca-Cola e projetei um acidente proposital./ Com o braço na mesa, fiz com que o copo fosse para o chão e se espalhasse pelo piso./ Nesse momento, eu seria tido como "o cliente mala"./ Seria, sim./ Isso se não houvesse uma estratégia por tras disso./ Imediatamente, assim que o funcionário da conveniência se aproximou para limpar a sujeira, tomei-lhe o pano e disse: "No Brasil, quando a gente suja, a gente limpa./ Não vou permitir que você limpe o que eu sujei"./
 
Houve uma mudanca de status./ Passei de "cliente mala" para "cliente legal"./ Era exatamente o que eu queria: ser diferente!/ Pessoas iguais não chegam a lugar nenhum./ Se chegam, são apenas como cópia./ Eu precisava criar uma alternativa para que pudesse conversar com os funcionários da conveniência e mostrar que alem de ser um cara legal eu precisava passar a noite alí dentro para não ser roubado./
 
Foi exatamente o que fiz./ Depois de ter limpado a sujeira que provoquei, passei a ser admirado pelos funcionários./ Nunca, em toda a minha vida, eu precisei de mais de uma oportunidade./ Claro, oportunidades reais!/ Porque existem aquelas oportunidades que são enganatórias./ Essas não contam./
 
O curioso, no entanto, foi que quando tudo estava certo, no chamado preto no branco, e eu já estava autorizado a passar a noite sentado no balcão com minha garrafa de Coca, vejo um bêbado entrando em minha direção./ Acredite, mesmo embriagado, ele dirigia um automóvel oficial./ Era da Secretaria Municipal de Educação de Bloenfonteim./ Imagine os alunos.../
 
Bem, o bêbado, como todo ébrio que não é corno, estava feliz./ Feliz porque um jornal mentiroso estampava em sua capa que a "África do Sul havia sido aprovada pela FIFA como pais qualificado para fazer uma boa Copa do Mundo no ano seguinte". Evidentemente, Joseph Blatter não iria dizer o contrário com apenas 12 meses para a realização do mundial./
 
O bêbado, no entanto, ao perceber que era brasileiro, se aproximou e perguntou o que pensava a respeito disso./ Aí entra a malandragem e o raciocínio rápido./ Disse na lata: "está realmente tudo muito bem, só faltam os hotéis que ainda nao ficaram prontos, mas tenho certeza que em um ano tudo estara ok./ Veja só, estamos sem hotel e vamos dormir aqui porque não temos outra opção./
 
A frase, proferida de forma educada, soaria como algo terrivel ao orgulho sul-africano./ E o resultado disso se refletiu no que chamo de "jogada de craque"./ Com sua garrafa de uisque na mão, o bêbado enfatizou: "Isso nao é um problema./ Você pode dormir na minha casa"./ Exclamei, "ok, mas estou com um amigo"./ E a resposta foi: "então, venham os dois"./
 
Como o bêbado dirigia um carro público, certamente, não era um ladrão./ Tampouco um estuprador./ O segredo das ruas é observar o tempo todo./ A situação engraçada, no entanto, surgiu ao decermos do carro./ Enquanto o bêbado, boa gente, dizia para mim que era preciso fazer silêncio porque sua mulher e seu filho de 3 meses estavam dormindo, de forma nada discreta, eis que surge aquela cocadinha básica que as mulheres abominam nos homens./
 
Ao ver aquilo e sem entender sequer uma palavra em inglês, o torcedor do Flamengo que me acompanhava, exclamou: "o que ele está querendo? Não vou fazer porra nenhuma do que ele esta gesticulando./  Diz pra ele que já bati em muita gente no Maracanã e que se eu quiser quebro a cara dele agora...".
 
Não foi preciso./ Sua mulher fez isso no dia seguinte ao saber que seu marido havia colocado dois estranhos para dentro da casa no quarto de hóspedes./ Como não entendo o dialeto africano, suponho que durante a briga entre o casal, na qual pude ouvir na cama, acredito que ela tenha dito algo mais ou menos assim: "bêbado só faz merda!"


Olhando para ele até dá para dizer que tudo caminha bem./ É verdade que alguns botões deixaram de funcionar há muito tempo./ Só para elucidar, apenas uma das três entradas de USB está funcionando./ Desta forma, quando se tem que utilizar mais de uma entrada por vez, é preciso fazer o revezamento de cabos./ Mas tudo isso não tem a mínima importância./ A verdade é que nenhum outro computador me agrada tanto quanto o meu amigo de guerra, Sr. Fotossíntese./

Para quem não sabe, Fotossíntese e eu temos algo muito precioso em comum./ Ambos adoramos o mundo./ Cada um na sua./ Mas, sempre juntos./ Onde quer que eu esteja, Fotossíntese está comigo./ Temos uma relação extremamente coesa./ São três anos de parceria e tenho certeza que não será desta vez que ele irá me abandonar./

Essa é a torcida./ Se com Fotossíntese as coisas não estão fáceis na África, imagine o quão difícil seria se ele me deixasse só./ Juntos passamos muitas situações de perigo./ Em nenhuma delas saímos derrotados./ Tudo bem que a cada novo terremoto que embarcamos, uma de suas teclas fica para trás./ Mas não faz mal, afinal de contas, não há nada que um teclado portátil não resolva./

Na realidade, ao longo de todos esses anos, temi pela perda de Fotossíntese apenas uma vez./ Justamente aqui na África, quando me preparava para voltar a Johanesburgo./ Lembro-me que Fotossíntese estava em minha mala quando fui abordado por dois ladrões./ Sem falar nada, pensei: "E lá se foi Fotossíntese"./  Experiente, no entanto, sábio de suas idéias e com a plenitude de sua razão, Fotossíntese se escondeu e calado assistiu a cena do roubo sem sequer ser notado./ O prejuízo seria incalculável se Fotossíntese estivesse em outras mãos no momento./ Tenho certeza que ninguém cuidaria tão bem de sua fonte de energia quanto eu./

Mas não foi só isso./ Uma outra ocasião, Fotossíntese resolveu dar um mergulho./ Estava na enchente de Santa Catarina quando o vi afundar lama a dentro./ Por sorte a mochila era impermeável./ E  olha que eu nem sabia disso./ Que diga o computador do amigo Everaldo Marques que certa vez acabou na piscina.../ Vai entender porque essas máquinas gostam tanto de água./

Entretanto, mesmo diante de um torrencial período nebuloso, no início do ano, Fotossíntese tirou suas merecidas férias de janeiro./ Eu não./ Embarquei para a Tragédia de Angra dos Reis com um computador cujo nome me recuso a falar./ Basta dizer que não nos acertamos como companheiros de quarto e depois de um mal entendido acabei mandando-o para a lata de lixo./ Ah, se eu estivesse com o meu Fotossíntese./

Entretanto, por mais dura que seja a realidade, sinto que Fotossíntese não é mais o mesmo./ Creio que sua aposentadoria esteja próxima./ Com o tempo a memória vai ficando ruim./ Imagine que poucas horas antes do meu embarque, justamente no dia da decolagem a África do Sul, ele sofreu de um triste colapso./ Tive que levá-lo âs pressas para o hospital, onde lhe deram aquele sossega leão e em seguida lhe fizeram um tratamento completo./ Soube depois que se tratava de um terrível vírus que quase o levara a falência múltipla dos órgãos./

Todavia, mesmo sem tempo para recuperação, Fotossíntese se mostrou fiel./ Subiu ao avião comigo pontualmente no horário estipulado e aqui está, percorrendo a África ao meu lado./ Mas não está nada bem./ Temo por sua saúde./ Ele está querendo parar de trabalhar./ Isso para não falar do cabo do teclado portátil./ Mas Fotossíntese é forte e não tenho dúvidas de que vai aguentar firme o tranco sem pipocar./ Afinal de contas, ele não veio à África para passear./ Portanto, Fotossíntese, é hora de parar de frescura!/   

De Pretoria,
Francisco de Assis.//


Para quem não sabe, a letra da música Welcome to the Jungle, do Guns n' Roses, não tem nada a ver com uma floresta selvagem./ Pelo contrário./ Retrata a rotina das grandes metrópoles tomadas pela violência e insegurança./ Um contexto que relembra a chegada do jovem caipira de Indiana, Axl Rose, a Los Angeles em uma conversa destas que costuma assustar: "Hei cara, você sabe aonde você está?/ Você está na selva!/ Você vai morrer"./

É mais ou menos assim que me sinto na África do Sul./ A diferença é que com o tempo a gente se acostuma com tudo./ E eu me lembro da primeira vez que estive em Pretória, na capital do país./ Foi em 2009, durante a Copa das Confederações da FIFA./ A princípio, parecia algo de outro mundo./ Calçadas apertadas, ruas escuras, sujeira por todos os lados e dialetos incompreensíveis aos não nativos./ Evidentemente, para um estranho, um local considerado no mínimo perigoso./ Isso para não dizer dos "manos" que ficam parados na esquina./

Essa é uma boa descrição da África do Sul./ Basta dizer que no ano passado tive meu passaporte roubado em plena luz do dia./ E olha que já estive em muitos buracos./ Ao todo são 38 países em apenas 16 meses./ Levando-se em consideração que escapei de terremotos, enchentes e guerrilhas, dá para dizer que não fui roubado por falta de atenção./

Sou o tipo de cara que adora as ruas./ No aspecto de vida, me considero um rato de esgoto./ Gosto do perigo e me sinto atraído pela emoção./ Converso com bandidos e jamais dou as costas a um ladrão./ Não tenho medo de nada./ Nem mesmo da impiedosa fúria humana./ Uma vez, em um papo com o jornalista Nilson César, ouvi o seguinte comentário: "O ser humano é um bicho estranho"./ A frase nunca saiu da minha cabeça./

Mas voltar a Pretória foi bem mais fácil do que eu imaginava./ Para ser sincero, considero Bloenfonteim mais perigosa./ Desembarcar em uma lotação, depois de 7 horas de vôo de São Paulo a Johannesburgo, foi incrível./ Principalmente porque enquanto os tolos desconhecem o perigo, os mais experientes reconhecem uma situação adversa e a encaram com tranquilidade./

Quando você está em um lugar inseguro, obrigatoriamente, é preciso estar ligado 24 horas./ Saber o momento de atravessar a rua ou dizer um "Hello, how are things going?" é extremamente importante./ Vi no Natgeo, tempos atrás, que os seguranças especializados aumentam o campo de visão com um simples olhar./ Isso tudo tem de ser identificado./ Se você sabe que determinado indivíduo pode ser um obstáculo em seu caminho, então, evite cruzar a mesma calçada com ele./ Não vai mudar nada alterar por alguns passos o percurso inicial./

Essas são algumas regras básicas de um manual de sobrevivência que tem dado certo. Ademais, nesta primeira passagem por Pretória, em 2010, procurei estar em todos os lugares ao mesmo tempo./ O que mais me agrada quando estou no mundo é a possibilidade de conhecimento constante./ Então, se você tropeça na rua e alguém lhe pergunta se está tudo bem, você já encontrou um bom motivo para aprender um pouco da cultura de um povo tão diferente./

Isso para não falar dos museus./ Imagine um reduto com ossos de diferentes espécies de dinossauros empilhados em forma de esqueleto./ É no mínimo interessante./ De um tempo para cá passei a admirar também pinturas a óleo e obras de arte./ Nesse aspecto, Pretória tem muito a oferecer./ E o detalhe: tudo muito em conta./

Somado-se a isso, é preciso ressaltar a alegria do povo sul-africano./ Absolutamente atípico./ Lembra, demais, o próprio Brasil./ Em termos de estrutura, há poucas opções de hotelaria para a Copa do Mundo./ Acabei dormindo na garagem de um consultório psiquiátrico./ Se você acha isso uma loucura, então, espere para saber que paguei pela canto de quem costuma colocar sorvete na testa o equivalente a R$ 70 reais./ É a lei da vida./

Quando se está só, além de identificar os inimigos, é preciso reconhecer os ‘amigos'./ Imediatamente assim que cheguei a Pretória, fui a casa de um casal que me recebeu por duas semanas no ano passado./ Lamentavelmente, com a aproximação da Copa, já estava tudo ocupado./ O jeito foi montar um dormitório na base do improviso e agradecer a Deus por mais uma noite de vida./ Vale lembrar que em Pretória, 19 horas é madrugada!/ Há uma espécie de "toque de recolher" ao cair da noite./ Não que você seja impedido de sair pela polícia após esse horário./ A questão, entretanto, é: "será que eu vou conseguir retornar?"./

Desta forma, encontrar um abrigo de última hora é como marcar um gol aos 48 minutos do segundo tempo./ Sobretudo porque eu estava com toda a minha bagagem nas costas, o que além de aumentar o desgaste, inevitavelmente, chamava a atenção dos bandidos./ Tive sorte de conseguir uma garagem com uma ducha com sistema de calefação e um aquecedor para espantar o frio./ Somente pela manhã, iniciei o trabalho de produção e reportagem na África 2010./ Deixei minha mala com o casal de amigos e me mandei./ Coloquei duas ou três peças de roupa em uma pequena mochila e caí na estrada./ Algum dia volto para buscar minhas coisas, afinal de contas não dá para ir muito longe com apenas dois pares de meia./ Pensando bem, até que dá./ Mas é melhor levar pouca coisa do que ficar por aí dando sopa com uma bagagem de 20 kg./ O importante, mesmo, é matar o leão que aparece no dia./ O resto é apenas uma conseqüência da melodia de Welcome to the Jungle./

De Pretoria,
Francisco de Assis.//


É preciso ter coragem para descer do avião em Johannesburgo./ Quem sabe o que é viver na selva entende bem o significado disso./ Melhorias estão para vir./ Pelo menos, no papel./ É o que dizem./ Mas, ainda hoje, há 22 dias para a abertura da Copa do Mundo, a recepção de quem passa pela migração pode não ser das mais agradáveis para aquele que espera encontrar na África do Sul uma combinação de receptividade e segurança./ Aliás, uma antítese clara no contraste de um povo onde o bem e o mal caminham em perfeita sintonia./

O Aeroporto Internacional de Johannesburgo, que seja dita a verdade, lembra de perto um antro de bandidos./ Caçadores de dinheiro se aproveitam da falta de conhecimento e do precário sistema de transporte local para fazer da vida de quem chega, o regozijo da malandragem./ É impossível deixar de notar a enorme quantidade de ratos que se oferecem de forma intimidadora para transportar os visitantes./ Ao som de Welcome to the Jungle, o segredo é ser mal educado./ Sequer responder./ Olhar feio e fingir ser um conhecedor profundo - não da África do Sul, mas, sim do próprio continente africano./

Rostos bonitos e palavras dóceis não adiantam./ Pelo contrário, só atrapalham./ E eu me lembro muito bem disso quando desembarquei na Copa das Confederações do ano passado./ Não havia ônibus, não havia trens./ Não que tenha mudado alguma coisa!/ Mas, se tratando de um aeroporto localizado a 20 km do centro da cidade, a única opção considerada menos arriscada, é aceitar ser roubado pela quadrilha de taxistas./ Um bando de ladrões./

Em 2009, na primeira vez que pisei por aqui, a solução encontrada foi me juntar a um grupo de brasileiros que conheci dentro do avião./ Ao invés de cada um ser assaltado individualmente, optamos no menor prejuízo./ Pagar o equivalente a 250 dólares ao motorista e dividir em quatro partes os gastos./ É o que se faz quando não se tem outra alternativa./

Desta vez, o desembarque foi mais tranquilo./ Quando a gente volta a um país que já se conhece o esquema, o jogo pode ser revertido./ Às vésperas da abertura da Copa do Mundo, o trem ainda não foi inaugurado./ O sistema de transporte continua ineficiente./ E os taxistas persistem na exploração./

De qualquer forma, optei em fechar a cara e cruzar a barreira de ladrões como se fosse um sul-africano e estivesse na minha área./ Caminhei em direção ao piso superior depois de me livrar dos mercenários e fiquei cerca de duas horas sentado em um restaurante./ Só então, encarei o desafio./ Informado por um dos garçons de que não poderia pagar mais de 150 rands (50 dólares) para seguir do Aeroporto ao Terminal Rodoviário de Johannesburgo, comecei a negociação com os taxistas./ Dos 600 rands iniciais, não consegui abaixar para menos de 250 rands./ Uma variação de mais de 100% que prova que o Aeroporto Internacional de Johannesburgo, definitivamente, está em péssimas mãos./ Isso pra não falar que, além de ladrões, os taxistas são mal-educados e fazem piadas do tipo "se você não for comigo vai ter que ir a pé"./

Quem não quer ir a pé arrisca sair pelo terminal caminhando em direção as lotações que ficam encostadas exatamente aonde deveria estar funcionando o trem./ As lotações fazem o papel do que os ônibus municipais, inexistentes na África do Sul, teriam de fazer./ Porém, com uma diferença./ Todas são irregulares./ Logo, não parece uma boa opção para quem chega com malas e dinheiro na carteira./ Entretanto com a ajuda de um sul-africano - o bom samaritano, revoltado com o papelão proporcionado pela quadrilha de motoristas -, consegui deixar o aeroporto em segurança, em direção à cidade Pretória./ Ao todo, gastei para chegar em no reduto universitário de Nelson Mandela, apenas 20 rands./ Muito menos do que os 600 iniciais./ Uma diferença gritante para quem opta em seguir o próprio caminho, longe dos taxímetros./

Em um país onde a Copa do Mundo vai começar em menos de um mês, era de se esperar que os organizadores, no mínimo, cuidassem da chegada de seus visitantes./ Não acontece./ É cada um por si./ E no Aeroporto Internacional de Johannesburgo vale o ditado popular: "Se ficar o bicho pega, se correr o bicho come"./

De Johannesburgo,
Francisco de Assis.//