Foram vinte e sete horas./ Apenas, tudo isso./ Parece pouco e suportável, quando se está com um bilhete de primeira classe./ Mas acreditem, é tempo que não acaba mais./ Vinte e sete horas são vinte e sete horas./ Isso é ponto./ Tudo bem que eu sou um apaixonado por trens, mas é preciso muita disposição para embarcar em uma aventura como essa./ Se você é o tipo de pessoa que não tem paciência, então, desista./ Vai perder uma boa oportunidade de curtir uma das melhores experiências da vida./ Agora, se você não dispensa um pouco do romantismo dos trilhos, então, se prepara para degustar um pouco da sensação de que o tempo parou e você continua vivo em um caminho sem volta./ É, simplesmente, incrível./
Faz-me lembrar, mais uma vez, uma canção do Guns n' Roses./ Essa, chama-se Nightrain e conta em sua letra uma história muito parecida com a minha./ Trata-se de um cara que vive em um caminho sem volta, um cara que bebe gasolina e só tem mais uma entre sete vidas de gato./ Um cara que pede para uma garota ligar o seu motor e diz para essa mulher: "acorde tarde, vista suas roupas, pegue o seu cartão de crédito e vá para a loja de bebidas./ Desta vez, será uma para você e duas para mim". Nightrain, na tradução do velho rock n' roll, significa "Trem da Noite", mas foi criada em tempos em que a grana andava apertada, em um contexto bem diferente do que se pode entender./ Devo explicar./
O famoso Rainbow, outrora reduto de encontro dos Beatles, é considerado um dos bares mais caros e atraentes do mundo./ Nele, foram gravados, entre outros clips, partes dos vídeos de Don't Cry, Estranged e November Rain./ Por volta dos anos 80, havia lá uma bebida forte e ‘barata' que se chamava "Nightrain"./ Em outras palavras, um vinho meia boca tipo sangue de boa que custa pouco e sobe rápido./ Mais ou menos como o velho Natal que eu tomava durante a adolescência antes de ser apresentado ao Bolla Italiano./ Nightrain era a única bebida que os integrantes do Guns n' Roses tinham dinheiro para comprar na época./ Daí surgiu a música em que Axl Rose canta "I'm on the Nightrain, never to return"./
Gosto desta música porque me identifico com ela./ Sou um cara solitário na estrada, chutado como um mendigo pelas ruas, tomando Nightrain pelo caminho e seguindo em um caminho sem volta./ Acho que a vida é isso./ Você entra na estrada e quando vê a estrada já te consumiu./ Você passa a fazer parte da estrada e ela passa a te querer cada vez mais./ E você, algumas vezes, até tenta ficar de fora, mas quando vê está dentro de um trem noturno, bebendo gasolina, vivendo sua última das sete vidas de gato./ E acreditem, eu já gastei todas as minhas outras seis./
Dito isso posso contar os detalhes da viagem de 27 horas./ Não foi a primeira vez que embarquei em um trem sozinho pela África do Sul./ No ano passado, após a Copa das Confederações, segui para o norte do país para entrar no maior safári do mundo, chamado de Kruger National Park./ Se não me falha a memória o Rogério Assis estava por lá.../ Confesso, não me recordo./

Aquela viagem de trem foi complicada porque só havia classe econômica dentro do expresso./ Então, embarquei junto com os bêbados no vagão./ O detalhe é que o consumo de bebida alcoólica é permitida dentro do trem./ Lembro de um cara mala que toda hora ficava falando "Never n' ever"./ Pela janela, ao amanhecer, dava para ver elefantes e outros tipos de animais em seu habitat natural./ Maravilhoso./ Eu poderia escrever um livro./ Aliás, vivem me pedindo isso./
Desta vez, embarquei na Cidade do Cabo pontualmente às 12 horas./ O trem partiu às 12h29, com um minuto de antecedência em relação ao horário marcado./ A estação ferroviária de Cape Town estava um bagaço./ Só para você ter ideia, havia até carro estacionado na plataforma!/ Nunca vi isso em lugar nenhum do mundo./
Paguei pouco mais de 400 rands pelo bilhete de primeira classe./ Mas primeira classe na África do Sul não significa muita coisa./ Porém, que seja dita a verdade: foi bem divertido./ Foi a primeira vez que viajei de primeira classe dentro de um trem e que tive que tive que dividir o meu compartimento com outro passageiro./ Era um negão de 30 metros de altura que mal cabia sozinho no quarto.../ Mas o cara era engraçado./ Ele tomava brand com coca-cola para esquentar./ Evidentemente, tomei um trago para brindar a vida./ Adoro uísque./ E tomar uísque no trem é bem legal./ O curioso é que o gerente de operação do trem, quando veio conferir a passagem, fechou a porta e ficou tomando uísque com a gente./ Eu não acreditei./ Aí quando liguei a câmera perguntei se ele estava tomando um "café".../ Foi bem engraçado./
Em 27 horas, você tem tempo, também, para ir ao vagão restaurante./ Afinal de contas, são 27 horas./ A comida é barata./ Aliás, na África do Sul, em si, as refeições não são caras./ O vagão restaurante, no entanto, deixa a desejar./ É melhor que o Argentino./ Fiz uma viagem uma vez de Buenos Aires a Cordoba de trem, e apesar de gostoso, o expresso era bem decadente./ Mas aconselho quem quiser fazer./ Vale à pena porque as coisas na Argentina são bem em conta e o lugar também é bacana./ Aliás já que estamos falando de trem... aconselho também o Trem da Morte que sai de Santa Cruz de La Sierra, na Bolívia, e vai até a fronteira com Corumbá, no Brasil./
O Trem da Morte é um capítulo especial./ É sem dúvida nenhuma o pior trem que já viajei./ Foram cerca de 24 horas em um assento de madeira não reclinável e duro./ Talvez você não acredite... mas vou explicar porque se chama Trem da Morte./ Durante a viagem, além de presenciar uma criança sendo atropelada pelo meio do caminho, ainda sofri um descarrilamento durante a madrugada./ Mas foi algo pequeno./ Não foi como nos filmes em que os vagões voam e as pessoas morrem./ O trem descarrilou dentro da estação ferroviária de uma das cidadezinhas que passa./ Não tenho a mínima idéia do nome./ Tirei fotos./ Foi um susto grande, para mim, mas eles já estão acostumados com isso... e colocam o vagão nos trilhos rapidamente./ Dizem, também, que se chama Trem da Morte porque transportava pacientes com tuberculose em carros especiais.../ Muito provavelmente, os passageiros já chegam mortos ao término da viagem./
De qualquer forma, o Trem da Morte é uma experiência fenomenal./ Você viaja com porcos, galinha e tudo o que imaginar./ Assim que voltar ao Brasil vou enviar o vídeo que editei para o Vagner Lima colocar no ar./ Vale à pena assistir./
Outra viagem de trem que fiz foi para Machupicchu./ Esse, um trem careiro, cheio de turistas./ Diferente do Trem da Morte, corta um dos cenários mais exuberantes que já vi./ Aliás, no quesito paisagem, nenhuma outra viagem que fiz, mesmo pela Europa, foi tão espetacular quanto os trilhos de Machupicchu./ E olha que conheço bem a Europa./ No Velho Continente fiz várias viagens de Trem./ Duas em especial./ Uma pelo famoso Orient Express, o trem mais antigo do mundo que liga a Turquia a Londres, cortando toda a Europa./ É uma viagem incrível./ A outra foi de primeira classe no TGV de Roma a Milão./ Sem comentários./ Somente fazendo para saber./
Então, quando eu falo de Trem, um pouco de gabarito eu tenho./ E o Trem da África do Sul que parte da Cidade do Cabo a Johannesburgo é interessante, sim./ Há um túnel de 13 km por baixo da savana./ Também cortamos a região das vinícolas sul-africanas./ E, enfim, chegamos a região metropolitana de Johannesburgo, que lembra muito o trem de subúrbio de São Paulo, com aquelas paisagens devastadoras./ Nesse momento, o melhor a fazer é fechar a janela e dormir./ Mesmo porque o vagão restaurante passa a maior parte do tempo fechado.../
Faz-me lembrar o vagão restaurante do TGV italiano... parece uma boate./ E eu ia me esquecendo, também fiz uma viagem de Trem da República Tcheca a Alemanha./ Aquela foi interessante porque, na classe econômica, dividi o compartimento com uma francesa e um casal de finlandeses./ Antes que a minha mulher fique com ciúmes já vou logo avisando que a francesa tinha cabelo no braço./ Mais que eu!/ Devia ser daquelas que colocam a baquete debaixo do braço e saem caminhando por París ao fim do dia./ O povo brasileiro tem uma mania de exaltar o exterior... mas deveriam dar mais valor ao que é nosso./ Quando chegar ao Brasil vou direto ao Rio de Janeiro fazer um passeio naquele trem que a gente paga R$ 2,00 na Central do Brasil e que quando acaba a luz é preciso sair pela janela antes de desembarcar no Maracanã para ver o Mengão do meu querido amigo da TV Record Tony Assis.../ E sai aquele montão de torcedor abraçado gritando "Mengão ê ô"./ Para tristeza dos corintianos.../
De Pretoria,
Chico de Assis.


